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Trecho do Livro

Os últimos minutos de Canudos

Às 2 horas e 50 minutos do dia 5 de outubro de 1897, o coronel Medeiros autorizou o incêndio e o uso de querosene. As praças fizeram rolos de pano velho, embeberam-os no líquido inflamável e começaram a jogar nos fossos, casas, trincheiras e em qualquer lugar onde se presumia estar entrincheirado o inimigo.

Os soldados que vinham mais atrás avivavam os fogos atirando lenha seca. O tenente Dourado lançava dinamite e em pouco tempo tudo virava chamas. Homens, mulheres e crianças iam sendo tostados.

O odor de carne humana em cremação provocava vômitos nos soldados. Era insuportável para qualquer um que penetrasse no recinto da luta.

Às 3 horas e 55 minutos um alferes de nome Paraná, foi enviado pelo coronel Medeiros a fim de verificar os resultados do incêndio. Retornando imediatamente começou a gritar:
- Está tudo acabado! Não há mais jagunço!...

A soldadesca invadiu a praça principal de Canudos ainda procurando jagunços para matar. A confusão era geral.

O coronel Medeiros mandou comunicar ao general Barbosa a queda de Canudos. Este imediatamente enviou as novas para Arthur Oscar, Comandante-em-Chefe.

Às 4 horas e 7 minutos da tarde as cornetas tocavam alvorada. As forças em suas respectivas posições perfilaram. A bandeira nacional foi hasteada em todas as posições de Canudos. A banda tocava o hino nacional enquanto os três generais desfilavam em cima dos escombros e cadáveres do povo de Antônio Conselheiro. As ruas estavam forradas de milhares de corpos. E o fogo continuava a queimar.

Arthur Oscar já sabia da morte de Antônio Conselheiro, enviou uma comissão de engenheiros para remover os entulhos do santuário a fim de descobrir o seu cadáver.

A partir das 6 horas da tarde até de madrugada os soldados faziam sua festa em cima das cinzas de Canudos.

No dia seguinte recomeçaram os trabalhos de escavação. A quantidade de cabeças, troncos e membros do santuário, aterrorizou até mesmo os duros soldados acostumados nesta guerra a todo tipo de atrocidades.

Às 10 horas da manhã, ainda no dia 6 de outubro, a pá de um dos escavadores bateu num corpo envolto em panos brancos, e sobre ele algumas flores esparsas. Eram os despojos de Antônio Conselheiro. O avançado estado de putrefação do cadáver não permitiu que se fizesse a autópsia.

Segundo os depoimentos do jornalista Favila Nunes para a Gazeta de Notícias: "Era um homem baixo, magro, de feições grosseiras, cabeça grande, testa larga, cabelos lisos, incultos e crescidos, barba grisalha, falhada nas fazes e longa no queixo; parecia moreno, representando um verdadeiro tipo sertanejo cearense; parecia ter mais de cinquenta anos, havendo quem afirme que tinha 62. Estava vestido com uma túnica de zuarte, alparcatas de couro cru e fora sepultado envolvido em uma esteira. Tinha na cabeça um pequeno barrete de algodão azul com frisos brancos".

Depois de reconhecido, o corpo foi enterrado, porém para ser desenterrado logo depois, e ter a cabeça cortada e entregue ao Dr. Curió para estudos.

Segundo Pedrão, conforme depoimento a Optato Gueiros (1956), a cabeça cortada e conduzida para exames, na capital baiana, não era a de Conselheiro e sim a de Manuel Quadrado, um beato que se trajava do mesmo modo que o seu chefe e conservava longas barbas.

O mistério da morte de Conselheiro não pode ser desvendado. Uns diziam que teria morrido em consequência de um ferimento numa coxa, durante o assalto de 18 de julho. Também foi constatada, a chamada "desinteria corredeira", surto de gastroenterite, provocada pelas águas poluídas do Vasa-Barris. Há quem diga ter ele perecido no combate de 25 de setembro vitimado por projétil sem direção ou estilhaço de granada. Foram encontrados junto ao santuário vários cadáveres de soldados do ataque do referido dia 25.

Canudos estava concluído. O resto das igrejas foi destruído a dinamite e a cidade um dia chamada Belo Monte era um vasto cemitério, coalhada de cadáveres insepultos, alguns cremados, uns em estado de putrefação e outros totalmente secos mumificados pela ação do calor.

Nos dias que se seguiram Arthur Oscar manda diariamente brigadas a procura de jagunços em Canabrava, Caipau, Cocorobó e outros lugares ao redor de Canudos.

Muitas famílias conseguiram fugir de Canudos além dos milhares de lutadores. Uns foram para as gargantas escondidas e sem acesso da Serra da Canabrava, outros para o Raso da Catarina. Segundo ARAS: "Ali comiam quase sem sal e bebiam água dos gravatás ou nas barrocas dos pés dos talhados, quando caíam uma chuvinha ou mesmo uma garoa. Chegaram até a plantar mandioca e outros cereais. Muitos desses indivíduos tomaram depois os nomes das tocas, onde viveram, verdadeiros montes de arenitos decompostos, em extensões de meia légua, lembrando o palácio do Minotouro. Não havia caminhos naquele deserto, só indo por ali quem conhecesse labirinto da veredas, como Ezequiel Profeta que tinha saído de Canudos com algumas cargas de fazendas e supria de tecidos aqueles seus companheiros.

Assim moravam e viveram muitos foragidos, até vir a anistia, e até hoje em nossos dias ali continua, vivendo descendentes dos fanáticos de Canudos". (ARAS, s.n.d.)