HISTÓRIA
A
IMPORTÂNCIA DE CANUDOS PASSOU DESPERCEBIDA Geofísico
e escritor Ruy B. Bacelar concede uma inspirada entrevista falando sobre a
Guerra de Canudos e traçando um inédito perfil do místico Antônio
conselheiro. |
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O Geofísico
e Escritor Ruy Bruno Bacelar de Oliveira ocupou as páginas da revista RAÍZES
DA BAHIA, em maio de 1991 numa inspirada entrevista em que além de
apresentar um perfil inédito da figura mística de Antônio Conselheiro -
historicamente retratado como louco, fanático e contra-revolucionário
perigoso – lança novas luzes sobre o sangrento episódio da Guerra de Canudos, inclusive afirmando que se o movimento iniciado por Antônio
Vicente Mendes Maciel, o conselheiro, ( 1855 -1897) houvesse prosperado, o
Brasil de hoje, seria uma grande
potência mundial. A
entrevista e o tema são verdadeiramente fascinantes. Lamentavelmente inúmeros
leitores, na época de sua publicação, ficaram privados do conhecimento
desta matéria devido a insuficiência de exemplares editados além do
que, ä distribuição da revista atendeu prioritariamente a setores específicos. A reedição, com transcrição integral do texto,
que fazemos agora, vem atender aos interesses dos leitores de hoje, os
quais estão separados daqueles de uma década atrás apenas pelo tempo,
de vez que, o tema, pela sua importância, permanece sempre atual. Embora possa parecer irônico, o informativo ATUAL
PRESS, nascido sob o signo do momento presente, inspira-se no
passado, revelando, difundindo idéias de pensadores e intelectuais,
desconhecidos pelo grande público. Esperamos que este exemplo possa ser
seguido por outros meios de comunicação, bem como pelos nossos
qualificados leitores, os quais estão convidados as nos ajudarem,
enviando matérias de interesse gerais e carentes de maior espaço na mídia,
as quais serão bem-vindas a nossa redação e, certamente, depois de
selecionadas, serão divulgadas na versão on-line, onde ganharão o
conhecimento mundial através da INTERNET. Se a importância do episódio de Canudos passou
totalmente despercebido na história do Brasil, o mesmo, obviamente, não
acontecerá agora com esta palpitante entrevista com Ruy Bruno Bacelar. ENTREVISTA (RAÍZES DA BAHIA/ MAIO 91) |
Bom Conselho
Um geofísico descobre na Guerra de Canudos um bom conselho
para os brasileiros, quase cem anos depois do conflito ter terminado.
Segundo ele, o ideal de Antônio Conselheiro, o mais legitimo herói
brasileiro, era construir uma sociedade de molde socialista, que poderia
ter transformado o Brasil numa superpotência mundial. |
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Ninguém
comemora o dia 22 de setembro. É que segundo a história oficial do
Brasil, neste dia, em 1987, morreria apenas um revoltoso, fanático e
ignorante. Seu nome era Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio
Conselheiro, personagem principal de uma das mais sangrentas passagens da
história brasileira, a Guerra de Canudos, no norte do sertão da Bahia.
Hoje, quase um século depois, Antônio Conselheiro desperta a curiosidade
de muitos pesquisadores, e para alguns deles a História oficial foi cruel
e mentirosa ao esconder a grandeza da Guerra de Canudos e cobrir, com a
poeira do sertão, o nobre ideal e a honra do Conselheiro, que ao invés
de vilão deveria ser considerado um dos mais legítimos heróis
nacionais. Um dos fãs de Antônio Conselheiro é o Geofísico
Ruy Bruno Bacelar de Oliveira, PhD pela Universidade do Texas, Estados
Unidos. Durante 20 anos, Ruy fez cursos de especialização nas Américas,
do Norte e do Sul e no Japão, onde foi o primeiro brasileiro a ingressar
na universidade de Tóquio. Ruy, 53 anos, começou a se interessar pela
história de Canudos quando ainda morava nos Estados Unidos. O livro Os
Sertões de Euclides da Cunha foi apenas o gatilho para o início de uma
pesquisa por mais de dez anos. Depois que esteve no palco da guerra, em
1987, estudando a geologia do terreno e ouvindo pessoas que sobreviveram
à época da Guerra de Canudos, Ruy decidiu dar sua contribuição à história. De
imediato, ele começou a escrever artigos para jornais de Vitória da
Conquista Ba. Onde mora há vários anos, dirigindo uma empresa de
geologia e prospecção de recursos hidrominerais. Estes artigos foram
compilados e formam hoje, o primeiro capitulo do livro “Meu Encontro com
Canudos”. Ruy Bruno bacelar pretende lançar o livro em Euclides da
Cunha, ainda este ano. Enquanto isso, está em fase de acabamento o
segundo volume de “Meu Encontro com Canudos”. Desta vez o trabalho é
mais elaborado e mais complexo. É a primeira contribuição de Conquista
à bibliografia de Canudos. Ruy chegou à conclusões jamais levantadas
por outros escritores, inclusive o próprio Euclides da Cunha. Ruy retrata
o conselheiro como um revolucionado e não revolucionário; como um
profeta sem santidade; um herói sem estátua. Repórter: Alguns
livros citam Antônio Conselheiro como um homem inculto que liderava um
bando de jagunços fanáticos. Até que ponto, isso pode ser verdade? Ruy Bacelar:
Somente o fato da Guerra de Canudos ter durado mais de um ano, com a
comunidade de Antônio Conselheiro resistindo até o fim, nos diz que
existe algo mais do que fanatismo religioso. Eles estavam coerentes e íntegros
com o que sentiam, acreditavam e achavam. Perguntei a um descendente de
jagunços, em Canudos, chamado Apolinário, se a “O Conselheiro estabeleceu uma comunidade de natureza socialista,
baseada nos anseios das massas camponesas... possivelmente, influenciado
pela "Utopia de
Thomas
More”.
Repórter: E o Conselheiro?
Ruy Bacelar: Bem... o Conselheiro falava e escrevia latim.
Tinha uma cultura razoável para época. Deixou pelo menos dois livros
escritos. Os Sermões, descobertos logo após a guerra e publicados em
1970 por Ataliba Nogueira. Em 1897, Antônio Vicente Maciel, o
Conselheiro, escreveu, nas Prédicas aos Canudenses: “Adeus povo,
adeus aves, adeus árvores, adeus campos. Aceitai minha despedida que
bem demonstra as gratas recordações que levo de vós, que jamais se
apagarão da lembrança desse peregrino, que aspira ansiosamente a vossa
salvação e o bem da igreja. Brado aos céus que tão ardente desejo
seja correspondido com aquela conversão sincera que tanto deve cativar
o nosso afeto”. Para mim Antônio Conselheiro é o maior vulto da história
do Brasil. “A República tinha medo da idéia
socialista em plena caatinga, contra o poder feudal e o latifundiário” Repórter:
Por que? Ruy
Bacelar: Quando
Conselheiro chegou a Canudos em 1893, lá vivia uma população suspeita e
ociosa. Dizem que esta população era constituída até de malfeitores,
cuja ocupação quase exclusiva consistia em beber aguardente e pitar uns
esquisitos cachimbos em canudos com metros de extensão, por isso é que a
região tem nome de Canudos, subiu num monte, olhou para o sol, braços
abertos, e disse aos crentes, fascinados e sucumbidos pelo sofrimento: “É
aqui”. Estava fundada Canudos. Ai começou o sistema igualitário, com a
distribuição dos bens; recebendo famílias de todas as partes do Brasil. Repórter:
Seria uma espécie de socialismo? Ruy
Bacelar: Sim...
Conselheiro estabeleceu uma comunidade de natureza socialista, baseada nos
anseios das massas camponesas, mais influenciado também pelas idéias do
cristianismo primitivo, e possivelmente pela “utopia” de Thomas Morus,
então, era um sistema socialistas em plena caatinga nordestina. Enquanto
isso, na França, plubicava-se pela primeira vez, a obra prima de Marx,
“O Capital”, que o Conselheiro jamais ouvira falar. Se é o
socialismo, dizia Afonso Arinos, só tem analogia com o comunismo peruano,
sob a organização teocrática dos Incas. Repórter:
Como funcionava, no dia a dia, a comunidade de Conselheiro? Ruy
Bacelar: Ali não
havia pobres, todos trabalhavam para a comunidade na medida de suas forças.
Não havia assaltantes, fome, desemprego, prostituição, jogo ou
explorados e exploradores. Não tinha prefeitura, autoridades, policia ou
eleição. Se tudo isso representa socialismo, então pode-se dizer que o
movimento de Antônio Conselheiro foi socialista. Repórter:
Sim. Mas seria um socialismo anárquico... Ruy
Bacelar: Era...
Era um sistema de socialismo anárquico. Embora, seja difícil classificar
o movimento de Canudos com um rótulo, por causa da variedade de tipos
humanos, do grau de religiosidade do povo de Conselheiro. O certo é que
depois da chegada de Conselheiro, a cidade só fez crescer. Entre 1894 e
1897 o arraial chegou a ter 5.200 mil habitantes. Segundo César Zama,
Canudos era a povoação mais numerosa da Bahia depois da capital.
Repórter: Você, até o momento, enfocou
apenas as questões sociais da comunidade de Canudos. Mas há pouco você
próprio se referiu a uma causa religiosa. Ruy
Bacelar: Há uma
coisa interessante. As pessoas que chegavam em Canudos eram católicas e
impregnadas com a idéia das imagens. Conselheiro então, colocava os
santinhos num armário. Quando fazia a sua procissão, não havia estátua,
nem santo; só a cruz. Isso mostra que o Conselheiro adotava um
Cristianismo muito diferente da Igreja Católica. Era um Cristianismo
muito mais próximo àquele pregado por Jesus. Repórter:
A ausência de imagens não seria porque o próprio Conselheiro se
considerava um profeta, um santo? Ruy
Bacelar: Todos
os grandes líderes têm certo magnetismo e poderes de convencer e
dominar as massas. Com relação ao Conselheiro, desde a época em que
morava no Ceará, em sua infância, aprendeu a enfrentar os poderosos.
Havia uma luta entre os Maciéis da família de Antônio Conselheiro e
os Araújos. Os primeiros eram pequenos agricultores e os últimos
latifundiários. Nesta luta entre famílias, em que o Conselheiro perdeu
quase todos os seus entes queridos, foi o aprendizado essencial para sua
liderança. Ele viu a miséria, morte, a doença, a subnutrição, a
guerra entre famílias e as injustiças do Nordeste atrasado. Foram anos
de peregrinação em contatos com as massas espoliadas do Nordeste.
Neste contato ele era o sacerdote, juiz, o advogado e, sobretudo, o
Conselheiro de tudo e de todos. Daí o nome de Conselheiro. Era
portanto, um solucionador dos problemas das massas ignorantes do sertão.
Daí, talvez, venha àquilo que confundimos com o lado místico de Antônio
Conselheiro. “A História do Brasil é a maior vigarice do mundo... Foi escrita por
sacerdotes católicos, visando os interesses da igreja, e por grupos econômicos
visando seus próprios interesses”. Repórter:
Mas a Guerra de Canudos teria começado por motivos políticos?
Ruy
Bacelar: A República tinha medo da idéia do socialismo em
plena caatinga, contra o poder feudal e o latifundiário. Porque o
sertanejo preferia trabalhar em Canudos do que trabalhar para o latifundiário,
do qual ele era explorado. As idéias do conselheiro poderiam propalar-se
e culminar com o socialismo no Brasil. Tiveram medo mais da idéia do que
do homem.
Repórter: Mas quem foi que começou a guerra? Canudos ou a República? Ruy
Bacelar: Já me
referi a isto antes. O conselheiro não fez uma luta agressiva. Ele
esperou ser agredido, e não agrediu. Canudos estava lutando contra o
Brasil. Não era uma guerra de aldeia contra aldeia. Ali estavam soldados
de todo o país, praticamente; do Pará, São Paulo, Rio Grande do Sul,
Santa Catarina, Rio de Janeiro, Goiás e Minas Gerais. “Os políticos organizaram o Estado
contra o povo. É uma espécie de Estado Vampiro que suga o sangue da
sociedade civil”
Repórter: Uma outra prova da inteligência do Conselheiro teria sido a
utilização de
táticas de
guerrilhas? Ruy Bacelar: Sim,
claro. Foi na segunda expedição, de Febrônio de Brito, que começaram a
aparecer os primeiros atos de combates utilizando a tática de guerrilha.
Assim foi que na entrada de Febrônio de Brito, através dos Taboleirinhos,
o negro João Grande escolheu um grupo de jagunços e saíram pulando de
uma pedra para outra, atraindo o fogo do inimigo para aquele ponto,
enquanto, enquanto outros jagunços, bem entrincheirados, alvejavam os
soldados. Ou eles estavam entrincheirados como ocorreria depois na
Primeira Grande Guerra Mundial, uma guerra de posições, ou então
estavam se movimentando fantasiados de árvores, com vegetação na cabeça,
atirando nos soldados em ataques rápidos e recuos, porque as armas,
daquela época eram carregadas pela boca e de um só tiro, ou no máximo
cinco tiros. Vinham aquelas levas com 40 ou 50 jagunços. A primeira,
atacava, atirava e deitava. Logo depois vinha uma segunda e uma terceira.
O exercito desconhecia isto. -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- “Canudos
é um não ao Brasil de Hoje... É o movimento histórico mais
importante de nossa história, e Antônio Conselheiro é o vulto maior
desta história.
Repórter: Essa tática deu certo?
Ruy Bacelar: Sim, principalmente contra a expedição de
Moreira César, oficial do Exercito mais conhecido e respeitado daquela época;
respeito pela campanha sanguinária que ele empreendeu em Santa Catarina e
rio Grande do Sul contra os revoltosos. Tinha o apelido de Corta Cabeças.
Esta expedição que dispunha de um poder de fogo de 16 mil tiros foi
desbaratada. Foi morto Moreira César e os jagunços se apoderaram das
armas, dando a maior surra no exército que tinha vencido a Guerra do
Paraguai.
Repórter: É a posição geográfica de Canudos era também estratégica? Ruy
Bacelar: Neste
“Meu Encontro com Canudos” cheguei a conclusão de que Canudos foi
construída em local hidro-geologicamente mais favorável para o consumo
de água subterrânea. A geologia de Canudos favorecia também às plantações...
Porque ficava às margens do Rio Vaza Barris, num local em que o rio
quando secava depois da vazante, depositava um limo que o sertanejo
aproveitava como adubo para plantação de milho, melancia, feijão e
mandioca, além de outras culturas.
Repórter: Como no Rio Nilo, no Egito antigo...
Ruy
Bacelar: Exatamente. O povo de Conselheiro usava o rio para a
agricultura e usava as rochas da região para o consumo de água subterrânea.
Então, Canudos não era só taticamente, mas do ponto de vista agrícola
e do ponto de vista de água subterrânea, foi assentada num local
maravilhoso. Eu diria, que até parece que o local foi escolhido por uma
pessoa com conhecimentos razoáveis de agricultura e geologia de solos. ---------------------------------------------------------------------------------------------------------- “As
forças atacantes cometeram um crime histórico monstruoso, invadindo
Canudos e trucidando toda a população civil. Os que sobreviveram foram
quase todos degolados, inclusive crianças “
Repórter: Mesmo assim Canudos perdeu a guerra ...
Ruy Bacelar: Sim, a última batalha, comandada por Artur Oscar,
foi a que destroçou e incendiou Canudos, não poupando ninguém, matando
inclusive, velhos crianças e mulheres. Esta batalha foi um ato de
covardia ainda não contada Pelos historiadores. No final da luta, já
morto o conselheiro, a maior parte dos combatentes retirou-se do arraial.
As forças atacantes, superiores em número, e com mais recursos,
cometeram um crime histórico monstruoso. Invadiram o que restava da
cidade e trucidaram toda a população civil. Os que sobreviveram foram
quase todos degolados, inclusive crianças. Portanto, para mim, Canudos é
quem venceu a guerra. O Exercito lutou e venceu moribundos e não
guerrilheiros. No pau a pau, os jagunços venceram a luta e é isso que
precisa ser dito na história. Além disso há a superioridade moral.
Enquanto no exercito grassava a violência, a ganância e a crueldade, em
Canudos existia solidariedade, a ponto de no final da luta, a população
deixas de Comer para que os alimentos dessem para os combatentes.
Repórter: Você insinuou que a
história não conta a versão verdadeira da Guerra de Canudos...
Ruy
Bacelar: A história foi escrita para agradar as elites, e nós
temos que resgata-la. A História do Brasil é uma vigarice maior do
mundo; é o conto do vigário, porque a maior parte da História do Brasil
foi escrita por sacerdotes católicos, visando os interesses da igreja, e
por grupos econômicos, visando os seus próprios interesses. A nossa história
republicana é quem mais contribuiu para o autoritarismo que preenche o
nosso dia a dia. A falta de educação provém deste autoritarismo,
misturado com a antropofagia. Ë uma sociedade onde uns devoram os outros,
exceto os estrangeiros que levam as nossas riquezas e nossa moral. Os
soldados foram à Canudos para salvar esta mal fadada república de
Deodoro e Floriano. Até Rui Barbosa e Euclides da Cunha foram enganados,
juntos com toda sociedade civil, do Brasil. E qual foi o resultado? Logo
após a Guerra, todos ficaram com remorsos. caso notável foi o de Rui
Barbosa, aqui na Bahia. No Politeama, durante a guerra, Rui fez um
discurso chamando os beatos de Conselheiro de bandidos. depois da guerra o
próprio Rui, no Congresso, pediu “habeas corpus”para os fanáticos;
mas já estavam todos mortos. E foi naquela época que a classe
intelectual brasileira passou por um grande processo emocional, que
culminou com o esgotamento do livro de Euclides da Cunha.
Repórter: Você acha que “Os Sertões “ retrata com fidelidade o
movimento de Conselheiro?
Ruy
Bacelar: Acho que sim. Estudei bem “Os Sertões “e acredito
que o livro representa bem a câmara de vídeo que não existia naquela época
e que Euclides, com seu estilo, conseguiu retratar fielmente. Eu acho que
ele retratou bem a luta e a terra. Agora existem conceitos emitidos pelo
autor, que discordamos. Euclides da Cunha não mencionou esta sociedade
como de natureza socialista, faltava para ele, possivelmente, dados sociológicos
e econômicos. ---------------------------------------------------------------------------------------------------------
“A expedição de Moreira César, que dispunha de um poder de
fogo de 16 mil tiros, foi desbaratada... Os jagunços deram a maior
surra no exército que venceu a Guerra do Paraguai “.
Repórter: E
Glauber Rocha? que é um Conquistense, retrata em sua obra ideais socialistas?
Ruy
Bacelar: Toda a obra de Glauber Rocha, se for bem analisada,
reflete, provavelmente, aquele ideal de Antônio Conselheiro, do bem
contra o mal, do justo contra o injusto.
Repórter: Você parece ser radicalmente contra as religiões. Por acaso
você segue alguma delas? E
politicamente, qual é sua posição? Ruy
Bacelar: Deus existe
dentro de nós, não está em nenhum templo. Eu não aceito o Deus das
Igrejas e nem a política dos partidos. Eu sou um homem que pensa, um
homem livre, que vai lutar até o fim pela liberdade, como Canudos que
lutou também até o fim por sua liberdade. Os políticos organizaram
estado contra o povo. É uma espécie de Estado Vampiro que suga o sangue
da sociedade civil.
Repórter: Canudos seria superior à nossa sociedade atual?
Ruy Bacelar: Mas é claro. Lá havia ética e moral. Canudos
era uma cidade, um estado, uma nação livre, que não deixava o seu
sangue ser sugado, como nós deixamos. Por isso é que Conselheiro, na
cidade de Bom Conselho, num dia de feira, quando foi cobrado por algumas
pessoas a pagar impostos do Estado, mandou arrancar os editais de cobrança
que tinham sido criados pela República e queimou-os em praça pública.,
Ali é que começa a perseguição contra o Conselheiro.
Repórter: Este teria sido o maior mérito do Conselheiro? |
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ATUAL PRESS em 17/04/01. ATUAL PRESS em 20/04/01
NOVAS QUESTÕES SOBRE CANUDOS Decorridos alguns anos após a sua
entrevista na Revista Raízes da Bahia,
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